Análise Bioenergética
ARTIGOS

O Narcisismo à Capacidade de dar de Si
Amadurecimento do Terapeuta
Maê Nascimento

Sempre ouvi dizer que o sucesso de um processo terapêutico está baseado na relação Terapeuta x Cliente (T x C) e sempre concordei com isso, embora hoje eu me dê  conta de que não tinha muito claro o que isto queria dizer.

Desde a Psicanálise - primeiro fundamento da Psicologia Clinica moderna  e na maioria das abordagens clinicas que a sucederam, a relação é o centro do processo ou o fator que propicia a "cura". Entretanto, se há entre essas escolas divergências tão grandes em torno de conceitos básicos, e mesmo nas definições de relação, como explicar que quase todas concordam sobre a importância central da relação? Vejamos como algumas teorias descrevem qual a atitude a ser adotada pelo terapeuta frente ao cliente nesse aspecto.

Uma das regras básicas da  Psicanálise era (essa postura tem mudado bastante ultimamente) a de que o terapeuta deveria se colocar como uma tela em branco onde o cliente pudesse projetar todos os seus pensamentos e sentimentos. Isso implicava numa atitude de distanciamento e "neutralidade" para preservar o T de qualquer "envolvimento" com seus clientes. O analista deveria, então, "receber" os conteúdos projetados do cliente - na maioria inconscientes, decifrar-lhes o significado e devolver ao cliente em forma de interpretação. Neste caso, o T tem total controle sobre o que,  de que forma e em que momento será comunicado ao C,  o que configura essa relação como "desigual", onde um sabe e outro não sabe,  onde um decide o que e como dar e o outro recebe "o que vier".  Uma atitude aparentemente passiva do T , que ouve sem interferir, esconde um condutor bastante ativo do processo - que julga e decide sozinho o que e quando o cliente está pronto para ouvir e assimilar.

Outras abordagens propõem uma postura explicitamente ativa do T, como por exemplo o Psicodrama, onde o T propõe ao C montar uma cena com os elementos de sua narrativa e a partir daí, dirige o ato dramático propondo uma série de técnicas para que o C possa ter uma percepção clara, na ação, dos vários mecanismos psíquicos envolvidos naquela experiência encenada.

Willhelm Reich, dissidente da Psicanálise, foi o primeiro a integrar as dimensões física e psíquica em sua técnica psicoterapêutica. Ele trouxe o conceito de couraça muscular como representante físico da couraça de caráter (psíquico) e propôs a manipulação dos anéis musculares para transformar a energia reprimida em energia sexual livre e criativa.

Alexander Lowen foi cliente de Reich e, inspirado em suas idéias,  fundou a Bioenergética, abordagem clínica em que se trabalha no âmbito corporal no sentido de desbloquear a energia vital ligada a conflitos infantis reprimidos. Essa liberação levaria ao restabelecimento do  fluxo energético vital, propiciando um aumento na mobilidade (física e psíquica) bem como uma reorganização do pensamento e da atitude ( “Não é possível  realizar a terapia bioenergética sem uma elaboração das atitudes e comportamentos cotidianos e das forças genéticas e dinâmicas que fizeram com que tais atitudes e comportamentos surgissem.” Lowen, A em  O corpo em terapia). Na Bioenergética, tal qual seu fundador a propõe, o terapeuta é investido de imenso poder : ele ouve a narrativa até o ponto em que ache que tem uma hipótese “diagnóstica” e sobre qual exercício corporal vai propor . Esse exercício é tanto mais eficiente quanto mais livre e contundente for a expressão das emoções bloqueadas, pois esta adquire uma função catártica.

Durante muito tempo essa dinâmica foi considerada central no processo terapêutico, e pouco espaço era dedicado à construção da relação T x C. O que resultava, freqüentemente , era uma relação transferencial que não era suficientemente elaborada e que podia ficar como “resíduo” por muito tempo, mesmo após o término da terapia. Essa perspectiva tem mudado bastante nos últimos anos e a relação terapêutica  vem adquirindo nova significação.

Em todas essas abordagens clínicas, a relação terapeuta-cliente é vista como um elemento de “cura” . No entanto, o que há de comum entre elas  sobre esse fator é que o terapeuta sempre “saberá” que tipo de problemas seu cliente tem e sempre tirará de seu arsenal técnico – e oxalá também de seu reservatório de talento, os recursos “certos” para minorar os sofrimentos e ajudar no crescimento de seu cliente. O terapeuta é, portanto, o ser especial que tudo sabe, tudo compreende e que concede ajuda ao cliente. Este parece ocupar sempre a posição do que nada sabe e que cresce através daquilo que o terapeuta lhe dá. O terapeuta aparece imenso em seu poder, enquanto o cliente é frágil e passivo.

Se o terapeuta caísse  na armadilha de acreditar que isso realmente é verdade, ele poderia se sentir muito bem nutrido em suas necessidades narcísicas, mas certamente não haveria crescimento para ninguém.

O que tem mudado, e terá que afinal ser encarado por todas as escolas clínicas, é que o terapeuta e o cliente só se relacionam de verdade enquanto duas pessoas inteiras e isto é o que  realmente faz a diferença e propicia crescimento. Para isso, o T terá que se despir de vaidade narcísica e estar consciente de que será atingido em seus processos pessoais (sentimentos, valores, experiências passadas) tanto quanto o cliente o é nessa interação dos dois. Essa troca espontânea e verdadeira exige bem mais do que o conhecimento de técnicas terapêuticas - exige um terapeuta amadurecido que assuma sua humanidade diante da humanidade do cliente.

Nesse caso, o terapeuta em Bioenergética teria uma condição ímpar de sintonizar com seu cliente, propiciada pela percepção das nuances até as mais sutis, da atitude corporal, pela proximidade físico-afetiva que o toque traz consigo, pela intimidade criada por uma interação às vezes sem palavras. Se ele puder usar essas percepções para apreender a experiência afetiva do cliente, bem como as reações afetivas despertadas nele próprio e compartilha-las sem medo de sua qualidade humana, há boas chances de crescimento para ambos.

Ter clareza a respeito de suas reações, compreendê-las, aceitá-las e compartilhá-las com o cliente é o diferencial do bom terapeuta e não depende do quanto ele aprendeu de teorias e técnicas, mas sim de seu grau de amadurecimento. Acredito que, mesmo para o terapeuta maduro e consciente, o abandono da posição narcísica em direção à liberdade para dar de si e compartilhar requer atenção e focalização constantes e ,mesmo assim,  apresentará oscilação no decorrer do processo terapeutico. Afinal, sentir-se especial para o outro é um anseio narcísico infantil que todos nós abrigamos e do qual é muito difícil abrir mão.

Em seguida, apresentarei o resumo de um caso no qual me vi bastante exposta aos perigos da acomodação narcísica, aos quais reagi expondo meus sentimentos à cliente- isto é, como uma pessoa “comum”. Isto nos aproximou em momentos extremamente difíceis, abrindo brechas para a comunicação quando a cliente mergulhava em crises de “autismo”. Aliás, é justamente na emergência de experiências pré-verbais - onde o cliente não tem condições de se comunicar por palavras, que a sintonia afinada do T, somada à sua habilidade para mostrar ao cliente que apreendeu sua experiência e que está “fechado com ele”, que a relação tem uma propriedade curadora e transformadora que nenhum outro fator terá.

Neste caso, procuro ilustrar minha busca pela troca verdadeira com a cliente, nem sempre alcançada, mas extremamente transformadora e gratificante quando realizada.

CASO

1 – Relação com o mundo através das máscaras

M., uma mulher de 37 anos, me procurou com a queixa de que não sabia se relacionar e que se sentia cada vez mais isolada do mundo. Sendo a caçula de 6 filhos, dizia lembrar-se que desde muito cedo estava sempre sozinha, brincava sozinha, não tinha a mãe e nem os irmãos por perto. Não se sentia pertencendo a aquela família. Nunca tinha contado com ninguém a não ser consigo mesma e tinha aprendido a relacionar-se bem tarde, observando os outros se relacionarem, mas sempre sem referência – não sabia o que sentia, nem quem era. Foi assim que ela construiu sua “persona” e seu caráter – o modo como funcionaria no mundo  - às custas de fazer “igual aos outros”.

Aos 17 anos, tendo entrado na Faculdade em outra cidade que não a sua, saiu da casa paterna para morar fora.  Mas sua saída se deu de forma dramática : seu pai, que era um homem emocionalmente instável e muito exigente, testava frequentemente seu poder junto aos filhos e um dia ameaçou-a de que se ela não se comportasse como ele queria (com obediência) ela deveria ir embora. Ela aproveitou a oportunidade e aceitou o desafio – afirmando-se como heroína, ela preferia sair e manter sua “integridade” a continuar submetendo-se ao pai.

Tinha construído uma imagem de força e auto-suficiência. No entanto, isso se limitava à aparência, pois ela não tinha uma estrutura egoica consistente que desse suporte e segurança à sua aparente independência. Ao longo de sua vida, ela tentou ser uma pessoa “normal”, que dava conta de sua própria vida. Desenvolveu uma estrutura de caráter rígida, cuja obstinação e disciplina levaram-na a concluir seus estudos e tornar-se uma profissional de relativo sucesso. No entanto, sua aparente segurança e altivez eram traços de caráter que escondiam sua falta de referências internas, seu sentimento de inadequação, seu isolamento afetivo.  Tinha escolhido uma profissão que implicava em cuidar do outro, e o domínio de um bom arsenal técnico propiciou-lhe um bom desempenho . Acreditava que uma posição profissional de sucesso  bastaria para mante-la “de pé” neste mundo - ao mesmo tempo que garantia sua auto-suficiência, propiciava contato com as pessoas, o que poderia torná-la menos só. Entretanto, seu sofrimento era enorme cada vez que tinha que entrar em contato com as pessoas (excetuando-se o trabalho) e ela se deu conta de que teria que fazer algo para sair dessa situação que a aterrorizava e que a deixava afetivamente desnutrida. É claro que esse temor era inconsciente e estava escondido sob a sofisticação de suas racionalizações. Ela era bem sucedida, ganhava bem e estava se preparando para “não precisar de ninguém quando envelhecesse” – quer dizer, desde cedo começou a preparar-se para morrer.

Quando chegou a meu consultório, a situação estava nesse pé – já não conseguia disfarçar seu terror à aproximação dos outros, e queria, então, “aprender a se relacionar”.

2 – A construção da relação terapêutica

O início do processo terapêutico se deu em torno de como ela configurava seus relacionamentos. M . morava com uma irmã mais velha, solteira, com quem tinha uma relação simbiótica. Faziam tudo juntas, comunicavam-se através do olhar, eram extremamente críticas em relação a tudo e todos. Aliás, essa era uma característica familiar : quando se juntava, a família funcionava como um clã onde a dominância era das mulheres ( 3 irmãs, entre as quais minha cliente). Os agregados (cunhados) e todos os outros eram excluídos, todos considerados “menores” -  menos inteligentes, menos espirituosos, etc. Ninguém estava á altura de compartilhar com eles de igual para igual. Na verdade, embora ela descrevesse o pai como extremamente crítico, exigente, mordaz e intolerante, havia identificação de todos os filhos com ele nesses aspectos – o que levava à exclusão dos de fora da família. Era dessa identificação que vinha sua falta de habilidade para estabelecer relações em geral. Para proteger-se de sentir-se atacada, rejeitada, incompetente, fraca, ela simplesmente se fechava em seu mundo, deixando todos os objetos hostis do lado de fora. Foi esse mecanismo, aparecendo na transferência, que me levou a compreender que eu precisaria encontrar um meio de atravessar sua barreira “autista”, seu fechamento, para que nossa relação pudesse enfim se estabelecer e se aprofundar sem representar uma ameaça mortal à sua integridade.

Houve, então, uma circunstância externa que trouxe à tona, no processo transferencial, a fragilidade dos pilares que sustentavam sua vida. Sua situação profissional sofreu um grande abalo com uma das crises econômicas tão frequentes em nosso país. De uma hora para outra, seus clientes rarearam dràsticamente, e ela viu sua situação econômica deteriorar-se ràpidamente, com a consequente perda da ilusão de sucesso e auto-suficiência. Não mais conseguia dar conta dos compromissos econômicos implicados em projetos profissionais megalomaníacos. Foi aterrorizante para ela ver que a imagem que ela duramente construíra com atributos externos para esconder suas fraquezas estava ruindo. Uma das 1as. “providências” dela foi me dizer que não podia continuar me pagando e que por isso teria que parar a terapia. Eu disse a ela que não se preocupasse com isso, que ela não precisaria pagar o que estava pagando até que voltasse a se reequilibrar. Foi dificílimo para ela aceitar que precisava continuar no processo “destituída” do poder de pagar, mas acertamos um preço simbólico e ela ficou. Ela não acreditava que tivesse atributos internos que poderiam fazê-la ser amada pelo que ela era. Diante de mim, transferencialmente, ela se via diminuída, fracassada e então, se fechava. Vinha às sessões e permanecia durante todo o tempo calada, olhando para um ponto no infinito, não dava mostras de perceber que eu estava lá. Eu a chamava, dizia que estava com ela fosse qual fosse a situação, que queria que ela me deixasse ajudá-la nesse momento difícil, mas ela não parecia me ouvir. Havia momentos em que eu desanimava e me perguntava se realmente eu seria capaz de chegar a ela, de fazer algo por ela. Contra-transferencialmente, ela me fazia sentir impotente, me fazia duvidar de tudo aquilo em que eu sempre acreditara : na força de uma relação compartilhada, na imensa nutrição afetiva  que  alguém que nos ama de verdade  propicia com seu apoio e conforto.

Eu me debatia internamente e , então, me obrigava a olhar para dentro de mim mesma e ver o quanto eu temia constatar meu fracasso em chegar até ela. Mas havia uma luz que significava que havia, sim, uma relação em processo, e que, de algum modo, funcionava: ela continuava vindo. Mesmo que não falasse, mesmo que não demonstrasse me ouvir, ela vinha e ficava lá comigo no decorrer de toda a sessão. Eu compreendia, então, que eu deveria estar lá inteira, o mais afinada e sintonizada possível a todas as nuances da sua expressão. Eu sabia que tinha que lutar pela nossa relação, usando meus recursos internos e meu amor por ela para traze-la de volta.

Além de todas as intervenções verbais que eu fazia, reassegurando-a de que eu estava ali com ela, eu propunha exercícios : grounding, para ajudá-la a fazer alguma conexão com seu corpo e com o chão; abrir o peito, para aumentar a quantidade de energia vital; bater pernas e/ou braços para por a energia em movimento. Não havia mudanças aparentes mesmo depois do trabalho corporal, o que também me fazia indagar o quanto aquilo tudo a estava realmente ajudando. Eu dizia e repetia para ela que ela não se fechasse, porque desse jeito ela se impedia de receber, de ser nutrida e se ela não se deixasse alimentar, ela morreria de subnutrição. Quando eu, por vezes, ficava exasperada com sua falta de reação, eu dizia que ela era mesmo uma criança mimada. Mas tudo isso parecia complicado demais, sofisticado demais para alguém que havia concluído que nada mais valia a pena, que tinha perdido tudo. Ela tinha razão – do seu ponto de vista: tinha perdido todo o seu alimento narcísico quando a imagem artificialmente construída no lugar de sua pessoa desmoronara. Ela se deparava com sentimentos absolutamente difusos, primitivos, oriundos do início de sua vida que a faziam crer, não apenas que não era importante, mas que teria sido, de algum modo, prejudicial à sua mãe. Resolvera, então, entregar-se “ao destino” – ela já havia dito antes que seu destino era viver e morrer sozinha e que achava que era a portadora da “cruz” da sua família.

Um dia, ela me disse, monossilàbicamente, que não tinha mais o que fazer aqui e que tinha pensado em se matar. Eu gelei, pois essa perspectiva colocava fim à minha tentativa de lhe dar nutrição afetiva básica até que ela pudesse voltar a enfrentar a realidade. Decidi, então, que se isso havia passado pela cabeça dela entre tantas fantasias nebulosas de punição e auto-comiseração, eu precisaria ajudá-la a destacá-lo para ter uma real noção do que estava dizendo.  Se a idéia de se matar assumisse forma e peso reais e definidos, ela veria, então, com clareza que essa poderia ser uma escolha ao lado de outra escolha : a de olhar para si como realmente era e viver de acordo com isso. Confiei na sua estrutura rígida, que dava conta das mais árduas e pesadas tarefas que a vida lhe impunha para encarar de frente a encruzilhada onde se colocava.

Pensei em propor um trabalho corporal que traz como efeito a vivência intensa da sensação de forças primitivas como vida e morte. Propus a ela encostar-se na parede e sentar-se, reta, numa cadeira imaginária, com as costas inteiramente apoiadas, e respirar. No começo é relativamente fácil manter-se ali, principalmente porque o apoio da parede às costas dá a sensação de que não é preciso fazer um esfôrço muito grande para se sustentar. Porém, à medida que o tempo passa, nessa posição, dá-se conta de que  força para se manter deve vir das pernas e da capacidade de respirar bem. A sensação, depois de algum tempo é de uma “concretude” dolorosa – é preciso reunir todas as forças para aguentar-se ali de pé apesar da dor e do cansaço.

Enquanto ela estava ali, eu pedia que ela respirasse muito e que dissesse alto e bom som que não tinha mais jeito e que ia se matar, e que ela dissesse isso para ela própria ouvir e repetisse até que soasse convincente para ela o que ela estava dizendo. Ela encarou a “tarefa” e foi se dando conta de quanta força ela podia ter e de que podia usá-la contra ou a favor de si mesma. Ao fim do exercício, ela estava exausta, mas pela 1ª vez em muito tempo inteira e viva.

Essa sessão foi um divisor de águas. A partir daí, o processo de morte e auto-destruição foi revertido no sentido de vida. Eu disse a ela muitas vezes e de diferentes formas que sua riqueza estava dentro de si mesma, no ser que ela era e que, quando pudesse perceber esse fato, passaria a valorizar as coisas de uma forma diferente em sua vida. O importante era que ela se desse conta de que, mesmo “destruída” e destrutiva, mesmo sem os artifícios de uma falsa imagem calcada em aparências, ela podia ser amada. Ela passou a confiar em mim, em meu amor por ela, porque eu tinha visto o pior dela (sua fraqueza e impotência) e mesmo assim havia continuado a seu lado.

A partir daí, começamos a desbravar juntas um novo caminho, fundado nos valores e qualidades internos que caracterizam nossa essência.

Para mim, reforçou-se a constatação de que, baseadas nesses valores internos, as relações pessoais tornam-se ricas e duradouras, pois temos o que trocar com o outro e temos a consciência de que isso é o que nos faz importantes e passíveis de sermos amados.

CONCLUSÃO - Dar e receber: Fruto de amadurecimento

O processo que descrevi foi um dos mais fortes e decisivos em meu processo de amadurecimento  - como pessoa e logicamente, como terapeuta. Nele, desenharam-se situações nas quais todo o conhecimento técnico e teórico teriam representado muito pouco se eu não estivesse consciente dos meus próprios sentimentos e processos e não pudesse expô-los de maneira apropriada. Meu afeto pela cliente muitas vezes tomou a feição de dúvida e desânimo; minha confiança no crescimento através de uma relação afetiva consistente chegou perto de desabar algumas vezes. Mas, de uma forma cuidadosa, pude expressar diante dela essa ampla gama de sentimentos provocados por suas atitudes ; e penso que isso levou-a a compreender  o quão importante ela era como o outro polo na interação comigo.

Minha imagem como terapeuta pode ter fugido do estereótipo daquele “que prediz e controla”, mas meu desempenho profissional foi altamente enriquecido pela qualidade humana de que estavam imbuídas minhas intervenções.

Torna-se cada vez mais claro que processos terapêuticos mais “bem sucedidos” ( o que não significa que não sofram oscilações e dificuldades) têm-se baseado na minha presença por inteiro, na ênfase da qualidade humana a dar consistência a todas as intervenções que eu faça na direção dos meus clientes. Tudo isso é fruto, acima de qualquer outra coisa,  de um processo de amadurecimento pessoal, que deve estar subjacente a todo conhecimento que se adquira.

BIBLIOGRAFIA

- Freud, S. Psicoanalisis  (Cinco conferências en la Clark University – 1909)
- Em  Obras Completas -Tomo II  Ed. Biblioteca Nueva –Madrid
- Kohut, H. – Self e Narcisismo – Ed. Zahar
- Lowen, A . –O corpo em terapia – Summus Ed.
- Moreno, J.L – Psicodrama – Ed. Cultrix

Data: Setembro/2001




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